sexta-feira, abril 22, 2005

Romana Petri (entrevista, II): "Saramago mudou a minha visão do amor"

- “A Senhora dos Açores” passa-se no Pico e tem outro romance com a ilha das Flores como cenário, “Um baleeiro dos montes” [editado pela Salamandra em Portugal]. Em “Uma Guerra na Úmbria” há uma passagem em que Alcina ouve de um companheiro de armas a letra do fado “Perseguição”. A ligação com Portugal parece muito forte. Vai voltar a escrever sobre este país?
- Nesta altura, estou já a escrever uma continuação de “A Senhora dos Açores”. Isto porque, na Feira do Livro, uma miúda veio ter comigo e apresentou-se como a sobrinha de João Freitas, personagem principal e que existe mesmo. Disse-me: “O meu tio casou-se”. No primeiro livro, há um conflito entre a turista e o João Freitas, que luta também com o fantasma da mulher falecida. Fiquei muito desiludida com o que me disse a rapariga. Estive no Faial e quis ir de barco para o Pico, mas não consegui por questões de agenda. No livro, imagino-me a ir ao Pico para discutir com ele. Num dia inteiro, consigo convencê-lo de que ele fez mal em casar-se outra vez, mas ele também me convence que fez bem... Estava a pensar em chamá-lo “Açores assim” ou “Ainda nos Açores”, mas ainda não sei. Vou editá-lo só aqui, em Portugal.

- Sente-se mais portuguesa que italiana?
- Gosto mais de estar aqui do que no meu país. Gosto muito de Itália, mas somos sempre mais críticos em relação ao país onde nascemos. Aqui há mais tranquilidade, menos violência, mais paciência. Aqui há uma depressão saudável. Gosto muito do silêncio. Portugal tem qualidades do Sul e do Norte da Europa: as pessoas são de temperamento mediterrânico, mas com uma discrição do Norte. Em Itália, é impossível unir as duas coisas.

- O que faz com que não pegue nas malas e venha de vez para cá?
- O trabalho, o meu filho. Mas passo muito tempo em Portugal, até porque estou a publicar agora apenas na língua portuguesa, para aqui, para o Brasil e para África.

- Algum escritor português a inspirou em algum dos seus livros?
- Não sei quantificar as influências. Mas gosto imenso de José Saramago. O “Memorial do Convento” influenciou muito a minha visão do amor. Também gosto de António Lobo Antunes, mas é muito cerebral, denso. Acho que é sempre muito parecido, além de escrever demais. E depois há os clássicos: Camilo, Eça, Camões. Adorava a Sophia de Mello Breyner Andresen. “A minha alma é feita de maresia”. É um verso dela.

- Nos seus livros, as personagens têm muita força, as descrições tornam-nas quase reais. Mas, ao mesmo tempo, há sempre algo de transcendental, de mágico, de fantasia. É difícil conseguir este equilíbrio?
- Eu própria sou assim. Muito materialista e, ao mesmo tempo, fantasiosa. Isso reflecte-se nos meus livros. Há sempre esta mistura. Uma interacção entre vivos e mortos.

- Acredita fazer parte de alguma corrente literária?
- Acho que sim, apesar de não dever ser eu a dizê-lo. O realismo mágico não surgiu na América do Sul, sempre existiu na literatura. Formei-me a ler romances de cavalaria sobre a Idade Média. O meu livro preferido é o “D. Quixote” de Cervantes. Mais uma vez, há essa mistura entre o fantástico e o real. A realidade parece-me sempre um pouco pobre e, por isso, junto-lhe alguma imaginação. Para mim, a escrita é como atravessar um rio. Moro deste lado, mas, de vez em quando, preciso passar para a outra margem para ver as coisas com outra perspectiva.

- Em todos os seus romances conta o mal dos outros. Para quando um livro autobiográfico?
- Escrever sobre os outros é ser altruísta, mais generosa. Os escritores mais biográficos que autobiográficos escrevem mais. De resto, há sempre algo de nós em todos os livros.

(by Luís Mateus)

Romana Petri (entrevista): "Quis consolar os filhos e punir os pais"



É um dos nomes do momento da literatura italiana. Romana Petri edita o seu quarto livro em Portugal, escrito em 1999, “para consolar os filhos e punir os pais violentos”.

- Como nasceu “Os Pais dos Outros”, as personagens, as histórias?
- Escrevi este livro em 1999. Sou uma escritora biográfica, mas também autobiográfica, porque há sempre um pouco de mim nos meus livros. Mas estou mais interessada nas histórias dos outros. Estas são histórias que conheci na minha vida. Histórias de alunos meus, inclusive. O pai de Giovanni, por exemplo... Junta-se sempre ficção quando se escreve, mas Giovanni foi um aluno meu, que vivia em permanente conflito com o pai. Tornou-se homossexual para lhe fazer a desfeita. Depois voltou à sua natureza, ser heterossexual. Um livro não se sabe como acontece. Começou com um conto, depois achei que devia continuar, como uma espécie de vingança contra a injustiça: uma consolação para os filhos, uma punição para os pais.

- Revoltou-se enquanto escrevia?
- Sim, um pouco. É um livro muito forte, cruel, de grande violência, em que me coloco do lado dos filhos. É que sou filha e mãe ao mesmo tempo. Os pais são fundamentais na educação dos filhos. Somos 50 por cento o que nossos pais fazem de nós. Isto gera uma grande revolta. Nos casos de Mário e Sandro conto como eles chegaram à vingança. A violência gera violência. Os filhos dominam os pais. A violência pode transformar o dominador em dominado. A psicologia moderna diz que os pais violentos geram filhos violentos. Este livro também é pouco a história da Itália da II Guerra Mundial até aos nossos dias. Houve uma mutação na paternidade. Após a guerra, o meu país era muito campestre, muito conservador. No último conto, que teve uma tradução difícil, tento mostrar essa transição. O pai de Nicola castiga o filho enquanto diz palavras em latim. Nicola torna-se pai. Há uma grande mudança. Ele percebe que não tem de bater para ensinar, apesar de manter as mesmas frases em latim.

- Sentiu alguma vez vontade de parar de escrever?
- Não. Fiz uma pausa ao escrever uma história boa. Não acho que todos os pais sejam maus. São uma minoria, mas isso não torna a situação menos grave. Este livro é também uma denúncia, uma acusação aos pais e também às mães que ficam caladas. Neste livro, são como sombras. As mulheres têm de se revoltar. Não podem ser cúmplices.

- Confúcio dizia que todos os homens nascem bons, Rousseau acrescentou que a sociedade é que os corrompe; acredita que todos os pais nascem bons?
- Sou mais da opinião de Diderot. Os homens nascem com virtudes e defeitos. No meu livro “Esecuzioni” [Execução], que vou editar em Portugal provavelmente no próximo ano, uso uma frase dele: “Os homens maus não têm de ser punidos, têm de ser eliminados”. Depois, o lugar e a família influenciam muito. Há irmãos que são completamente diferentes. Há ainda o ADN, que tem uma grande importância naquilo que somos. O que é verdade é que pais cruéis podem gerar pais cruéis. Este livro avisa que a violência pode gerar violência. Também tem alguma psicologia: as crianças são seres humanos muito fracos, temos de formá-los e não de os destruir. É inacreditável que a maior parte da violência da nossa vida exista na própria família. É importante termos uma raiz forte, que nos permita sobreviver. Nos meus livros, nunca falo de casais separados. Não é preciso que haja divórcios para que exista violência. Prefiro uma família separada feliz, do que uma junta infeliz.

- Disse uma vez, numa entrevista, que “o literário é perpétuo, a realidade dissolve tudo”. Foi por isso que escreveu este livro, para que o aviso seja perpétuo?
- A vida e a literatura são muito diferentes. Viver de uma forma literária é ridículo. Mesmo um escritor muito inteligente, se viver dessa forma perde a inteligência. A verdade é que o livro fica e a realidade passa. A literatura serve para fazer passar uma mensagem. Mas detesto todos aqueles que se acham Dostoievski. É preciso que haja humildade. Eu gosto do que faço, não tenho como ambição deixar um traço importante na história. Tenho uma visão muito lúdica da escrita, apesar de ser calvinista e moralista. Gosto de maridos fiéis, separar o bem do mal... Neste mundo que está a perder a moral, não faz mal que seja assim.

- Que reacções tiveram Avelina, Giovanni, Gualtiero, Gaetano, por exemplo, quando os reencontrou após ter publicado o livro?
- Não os encontrei a todos. Há histórias de há muito tempo. Nunca consegui escrever nada no presente. Pode ser que algum deles tenha lido o livro. Mas há sempre duas opiniões: ou se gosta ou se detesta. Os pais devem ter ficado chateados, os filhos mais contentes. Se alguém se reconhece no que está escrito no livro, a culpa não é minha.

- “Os Pais dos Outros” já venceu alguns prémios em Itália. O que seria para si o sucesso em Portugal?
- Não sei. Todos os livros impressos estão nas livrarias. Isso é bom sinal. O livro também é muito forte no aspecto psicológico. A maioria já teve problemas com os pais. O primeiro conto, que é quase um prefácio, é sobre o meu pai e ele era um bom pai, no sentido de que gostava muito de mim. Mas todos têm algum tipo de problema.
(Versão uncut da entrevista publicada hoje no jornal Metro, by Luís Mateus)

quinta-feira, abril 14, 2005

Sugestões de leituras (de 15 a 22 Abril)

“Melodia ao Anoitecer”, de Siddharth Dhanvant Shanghvi (Civilização)
O livro que estabeleceu comparações entre o autor e os consagrados Salman Rushdie e Arundhati Roy. “Melodia ao Anoitecer” é um livro que se vê mais do que se lê, dedicado a manter vivas as tradições de uma Índia desconhecida para o povo europeu. Excelente escrita e passagens quase poéticas. O regresso em força do realismo mágico.

“As Deusas em cada Mulher”, de Jean Shinoda Bolen (Planeta)
Um livro para todas as mulheres, dirigido sobretudo àquelas que se sentem na terceira fase da vida. Em 263 páginas, Bolen explica por que essas devem dar um passo em frente e assumir a sua responsabilidade perante o mundo, oferecendo tudo o que absorveram ao longo da vida. Para isso, a escritora conta a história de deusas e fala de arquétipos – modelos endógenos de conduta, segundo o psicólogo suíço Jung. O fim: “uma mulher viçosa e sumarenta”.

“Os Filhos”, de Dan Franck (Asa)
Jeanne e Pierre. Divorciados. Pais. Haverá, na vida, uma segunda oportunidade? Dan Franck está preparado para provar que sim, depois de em 1991 ter ganho o Prémio Renaudot com “A Separação”. Uma nova família, com antecedentes difíceis, quatro crianças e dois solteirões felizes que encontram finalmente no outro o amor correspondido, procura resistir aos conflitos do dia-a-dia. No livro inspirou-se Christian Vincent para um filme com o mesmo nome.

“Estação Carandiru”, de Drauzio Varella (Palavra)
Best-seller no Brasil, venceu inúmeros prémios: melhor reportagem, melhor livro de não-ficção e melhor livro. Acabou por inspirar um filme que, curiosamente, antecipou a obra de Drauzio Varella em Portugal. O autor relata o trabalho voluntário de prevenção à SIDA que realizou como médico na Casa de Detenção de S. Paulo, a maior prisão brasileira, no bairro de Carandiru. Uma experiência pessoal intensa.

“Jorge Palma – Na Terra dos Sonhos”, organizado por João Carlos Callixto (Quasi)
De 1971 até ontem. Do primeiro vinil pela banda Sindicatos até estar a solo no palco. Único na voz e nas palavras. É o primeiro livro que reúne tudo o que foi escrito pelo cantor que melhor sobreviveu ao fim do protesto político. Crítico desde sempre, um livro em que se folheia Jorge Palma: “Deixa a música ser/Deixa a música sair/Deixa a música continuar/Deixa a música levar-te onde o teu coração quer chegar.”

“O Segredo de Mona Lisa”, de Dolores García (Europa-América)
Francesco Melzi, discípulo de Leonardo da Vinci, assiste às últimas horas de vida do mestre, ainda e sempre obcecado com um quadro: “La Gioconda”. O génio conta então, por Melzi que o narra e por Dolores García que o escreve, a sua relação com a mulher que retratará no quadro hoje em exposição no Museu do Louvre, em Paris. Lisa Gherardini, a sua... Lisa. Um romance, de estreia, muito interessante.

quinta-feira, abril 07, 2005

Sugestões de leituras (de 7 a 14 de Abril)

“Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido”, de José Saramago (Caminho)
É o regresso do Nobel ao teatro. A história de Don Giovanni, personagem principal da conhecida ópera de Mozart com o mesmo nome, é contada por José Saramago à sua maneira: o sedutor de 2065 mulheres passa a ser o eterno seduzido, segundo a pena do autor de “O Memorial do Convento” e “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Este livro é o resultado do apelo do compositor Azio Corghi para que, juntos, escrevessem um libreto para uma ópera a ser apresentada no Scala de Milão.

“Gulag – Uma História”, de Anne Applebaum (Civilização)
Prémio Pulitzer 2004 para a não-ficção. Só isso diz quase tudo. Gulag é um retrato do que foram os antigos campos de concentração soviéticos durante o tempo de Estaline. Os primeiros e últimos capítulos concentram-se na lição que ocidente e oriente devem retirar do que foi o sistema prisional na URSS. No miolo, surge uma série de relatos de heróicos sobreviventes. Os gulag eram um mundo em si mesmo: havia amor, traição, nascimentos, crime e amizade. Uns eram culpados, outros não.

“De Amor”, de Danièle Sallenave (Gradiva)
“Contar isto absorve todo o meu tempo, todas as minhas forças, transborda dos meus sonhos. Carrego comigo um estimável património de mortos, é preciso dizê-lo. E quem se lembra deles? Eu.” Duas pessoas amadas pela mesma mulher suicidam-se. A tia debaixo de um comboio, o antigo amante, que nunca gostou do que via ao espelho, à fome. Um livro autobiográfico sobre os traumas da guerra e da separação amorosa.

“O Atlas Furtivo”, de Alfred Bosch (Livros do Brasil)
Um thriller histórico. O pai de Jafudá, personagem principal, é encarregado pelo rei de Aragão de elaborar um mapa-mundo, o mais preciso e belo até então (século XIV). Ao mesmo tempo, o velho Cresques de Abraão decide elaborar outro. É nesse momento que Jafudá é envolvido num onda de acontecimentos imprevisíveis. Prémio Santi Jordi em 1997, “O Atlas Furtivo” é um livro de leitura fácil e entusiasmante.

“A Paixão de Maria Madalena (segundo volume)”, de Margaret George (Saída de Emergência)
A segunda parte da história d’ “A mulher que amou Jesus”, que relata a história de Maria Madalena como discípula de Cristo. George evoca com grande autenticidade as cores, os sons e as multidões da antiga Judeia. A autora aceitou o desafio enorme de escrever uma biografia ficcional sobre alguém de quem se sabe pouco. O resultado é um bom livro (no original, os dois volumes estão reunidos num único), apesar de esta segunda parte parecer um pouco menos atraente que a primeira.

“As Paisagens Propícias”, de Ruy Duarte de Carvalho (Cotovia)
O antropólogo angolano conta neste livro a história de um homem, Paulino, a quem foi pedido que encontrasse outro no meio do deserto. O motivo: uns papéis preciosos concentrados no interior de uma mala. Uma vez cumprida a missão, a Paulino é reenviado pelo mesmo homem de encontro ao mandatário da expedição com o objectivo de o trazer perante ele. É a terceira obra de ficção de Ruy Duarte de Carvalho, depois de “Como se o Mundo não Tivesse Leste” e os “Papéis do Inglês”.
(by Luís Mateus)

quarta-feira, abril 06, 2005

O jardim da Europa do futuro

O autor de “A Voz dos Deuses” e “A Encomendação das Almas” edita agora “O Jardim das Delícias”. João Aguiar mostra mais uma vez uma versatilidade que não está ao alcance de todos os escritores.

Do registo histórico – do já referido “A Voz dos Deuses”, de “A Hora de Sertório” e “Inês de Portugal” -, passando pelo fantástico na obra de contos de “O Canto dos Fantasmas” e pela literatura mais apropriada a um público juvenil, da qual “O Sétimo Herói” é um bom exemplo, o antigo jornalista explora agora um quadro futurista. Uma Federação Europeia, “filha da União Europeia e neta da CEE”, pretende acabar com os traços mais nítidos do nacionalismo, em nome de algo a que chama “Coesão”.

João Carlos é o protagonista. Num mundo em que os carros andam com piloto automático, um jornalista da mais credenciada publicação portuguesa vê-se com uma bomba-relógio prestes a rebentar nas mãos. De um lado, os integristas querem fazer regressar o país aos seus traços únicos. Do outro, os federalistas esperam silenciosamente o momento certo para erradicar o movimento. O caos parece próximo, à medida que o repórter vai descobrindo, e divulgando, o que realmente se passa. A realidade torna-se, num ápice, um mundo paralelo, quase inexistente.

Um exercício sobre o futuro
“O Jardim das Delícias” é, ao mesmo tempo que reclama o estatuto de romance, um exercício mental sobre o que pode reservar o futuro a todos os cidadãos europeus. O final pode não ser o mais risonho, mas não deixa de ser um dos vários caminhos possíveis. Um caminho que assusta.

João Aguiar é um contador de histórias. Sabe-se, sente-se que adora contá-las. As palavras flúem naturalmente, agarram-se à leitura. E, resultado: as páginas devoram-se. Mas o autor parece ter parado na altura em que o seu romance estava perto de se tornar um “thriller”, tão na moda nos últimos tempos. E se há algo de que não possa ser acusado é de ser um dos nomes da moda. Nunca o foi.

O livro sabe a pouco. Como se lhe tivessem arrancado metade, depois de apenas nos ter introduzido na trama. Esse pecado, que até pode ter sido propositado, retira-lhe alguns elogios. O escritor até talvez já o sinta e prepare um livro de continuação. Os leitores mais fiéis merecem-no.
(by Luís Mateus)

Um mistério decifrado cedo de mais



Anna (Nicole Kidman) fica viúva. Uma criança (Cameron Bright) surge na sua vida, quando se prepara para casar com Joseph (Danny Huston). O miúdo aparece com a convicção férrea de que é Sean (o marido) reencarnado. Ela não acredita, claro, quem o faria? Mas a sucessão de acontecimentos fá-la tremer, vacilar, colocar em causa tudo em que acreditava até aí. Apesar de a matriarca Eleanor (Lauren Bacall) e a irmã Laura (Alison Elliott) a tentarem amarrar à terra e à realidade, Anna está disposta a tudo para dar continuidade ao amor interrompido.

“Birth – o Mistério”, realizado por Jonathan Glazer, é um daqueles filmes que nos deixa no vazio. Porque ficamos no impasse entre o aplauso e o assobio. Glazer faz de tudo para intensificar o drama. Cada “take” foi feito com esse objectivo: aumentar a intensidade, com o tempo usado, com as cores ou as expressões dos actores. Depois, há Nicole Kidman e Lauren Bacall, que já provaram inúmeras vezes o talento…

O que corre mal? Torna-se previsível, talvez. Sobretudo quando o jovem Sean persegue Clara (Anne Heche) no meio de um bosque e a vê a enterrar algo. O “twist” perde-se, claro. A reacção ao mesmo, no argumento, é banal. Por isso, ficamos nesse impasse: saímos da sala com a sensação de que podíamos ter ido ver o Million Dollar Baby, nem que fosse pela segunda vez.
(by Luís Mateus)

terça-feira, abril 05, 2005

Nem carne nem peixe no meio do oceano

Um homem nasce numa viagem aérea entre Portugal e Brasil. Fica luso-brasileiro, nem carne nem peixe, para sempre. Vive entre os dois países, por desejo dos pais, fala com perfeição os dois sotaques e os muitos termos diferentes da mesma língua, mas não consegue criar raízes. Nunca ganha a sua identidade. Anos depois, após ter saboreado apenas um trago da felicidade, é raptado. Nessa casa-de-banho escura, perante a companhia cada vez mais temida de uma aranha, recorda uma vida repleta de amargura.

Paulo, filho de um pai novo-burguês, vira trotskista. Conhece uma mulher comunista, mas que vive segundo leis liberais, e tem um filho mimado que, pouco a pouco, se afasta dele. Regressa ao Brasil. Casa-se com uma especialista e experimentalista em sexo, que tem uma filha que pratica a auto-flagelação como filosofia de vida. Rompe com a mulher, cria afinidades com a rapariga, que o vê como um amigo. Talvez como pai. Para trás, ficou uma professora deformada por um acidente no churrasco, provocado pelo seu excesso de zelo, e uma colega que o achava atraente, mas que ele afastou devido a um medo que o perseguiu desde sempre.

O típico anti-herói
“Transatlântico”, de Paulo Nogueira, é um bom livro. Crítico por vezes, bem-humorado por outras. Fatídico quase sempre. Paulo é o puro anti-herói, do qual se adivinham sempre os finais infelizes. Mas a personagem torna-se apaixonante. Tão próxima e ao mesmo tempo tão distante de nós, de pessoas que amamos ou conhecemos. Paulo, um “brasuca” altruísta, que todos gostariam de ter como amigo, procura um rumo para a vida que lhe foge desde criança. Desiste da faculdade de Direito, torna-se cobrador de impostos. Desiste de ser justo na procura das igualdades sociais e encontra a catarse num veleiro. E no mar.

Já se disse que é bom. O sexto romance de Paulo Nogueira é mais que isso, é um livro surpreendente. Mas cria ao início uma relação difícil com o leitor. Como se houvesse dois ritmos, o autor deixa de abusar das comparações – às vezes chegam a ser duas numa frase – e passa a usá-las, mais lá para a frente, com mestria. Com inteligência. A obra torna-se assim melhor a cada página.

“Transatlântico”, editado pelas Publicações D. Quixote, não chegou só agora às montras das livrarias. Já será difícil que o apanhem em lugar de destaque. Mas, para quem esteja atento, não será muito complicado reconhecê-lo quando estiver de frente para a capa. É que se trata de uma das mais bem conseguidas dos últimos tempos. A prova, como se ainda faltasse, de que se trata de um livro cuidado.
(by Luís Mateus)

Ser judeu para o bem e para o mal


(Foto: Lusa)

Uma Mitzváh é um mandamento, uma ordem que se recebe da leitura e interpretação do Pentateuco, o conjunto dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento. Para Alain Elkann, uma Mitzváh é sentir-se judeu e fazer com que os outros compreendam o que é sê-lo. O que nunca foi fácil, como conta, com maior ou menor paciência, a história. O seu livro, best-seller internacional, transporta-nos ao difícil mundo da tolerância para os novos costumes, crenças e religiões.

“Ser judeu quer dizer prestar atenção, fazer o melhor possível para garantir alguma certeza a si mesmo e aos outros. Quer dizer saber ser olhado com suspeita, com inveja ou com respeito excessivo, mas de qualquer modo como um perigo. Ser judeu quer dizer ter de defender-se, tentar construir uma força interior para não ser destruído. Ser judeu quer dizer ter a responsabilidade de levar para a frente a cultura de um povo com mais de cinco mil anos de história e que ninguém ainda conseguiu, apesar das muitíssimas tentativas, exterminar, mandar calar.”

“Mitzváh” é um livro sobre uma vida, a do autor. Uma obra sobre a sua tentativa de se integrar num mundo que sempre o olhou com desconfiança. A ele e aos outros. Elkann debate-se ao longo de 59 páginas com as suas filosofias de vida, filosofias de um “judeu errante”, como lhe chamava o pai. Por se sentir em casa em sítios diferentes, por acreditar que o mundo deveria ser apenas um. Por ser diferente dos demais. É um livro filosófico sobre uma causa: viver feliz.
Alain Elkann faz o elogio do que é ser judeu. Do que foi e do que será. Para o bem e para o mal.
(by Luís Mateus)

sexta-feira, abril 01, 2005

Sugestões de leituras (de 1 a 7 de Abril)

O Exílio e o Reino, de Albert Camus (Livros do Brasil)
Seis contos reunidos pelo talento de Camus – “A Mulher Adúltera”, “O Renegado”, “Os Mudos”, “O Hóspede”, “Jonas” e “A Pedra que Cresce” – escritos um após o outro, em série, mas trabalhados isoladamente, com estilos diferentes, desde o monólogo interior à narração realista. O tema comum é o exílio. O exílio como forma de renascer e de negar a submissão a ideias erradas.

Mar de Glória, de Nathaniel Philbrick (Publicações Europa-América)
A história da grande expedição norte-americana de 1838 aos mares do Sul. Quatro anos na Antártida e no Pacífico resultaram em várias descobertas científicas e geográficas. Uma viagem que se quis esquecer devido aos maus-tratos causados à população pelo arrogante e paranóico Charles Wilkes, líder da expedição. A luta entre o homem e a natureza, a América e a Europa, a ciência e a política, os homens e entre cada um consigo próprio.

O Sonho dos Heróis, de Adolfo Bioy Casares (Cavalo de Ferro)
Só o punho decidido do argentino conseguiria aguentar durante mais ou menos 160 páginas um ritmo tranquilo para nas últimas dez ou 20 mudar por completo o rumo dos acontecimentos. Um livro sobre a insegurança na mudança da adolescência para a idade adulta e sobre a inevitabilidade do destino. Casares foi galardoado em 1990 com o Prémio Cervantes – o maior reconhecimento dado a escritores de língua espanhola – e este é um dos livros que explica porquê.

Malmequer, Bem-me-quer, de Claudia Carroll (Presença)
Esta é a estreia literária da actriz irlandesa Claudia Carroll. Um livro leve, espirituoso, que procura que o leitor se sinta bem em cada parágrafo. Um livro para divertir, escrito com simplicidade. A história de uma família rica e da sua vida depois da fuga do pai com uma jovem ajudante de cavalariça.

O Livro dos Homens sem Luz, João Tordo (Temas e Debates)
Livro de estreia, palavras que envolvem e sobressaltam, com as sombrias Londres e Brighton a fazer de cenário. Quatro histórias paralelas, em viagem entre o presente sem luz e o passado onde desligaram a corrente eléctrica das suas vidas. Um pesadelo que lembra Kafka por vezes, Edgar Allan Poe outras e que vai crescendo com um solidez que não deixa que se pare de ler no final da próxima página.

A Vizinha do Lado, de Barbara Delinksy (Difel)
Um jovem casal tem um objectivo comum a tantos outros: ter filhos. O tempo passa e Amanda não engravida. Paralelamente, uma jovem vizinha, viúva há um ano, descobre que vai ser mãe e recusa-se a revelar o nome do pai. A infertilidade é o ponto de partida de um livro sobre as dificuldades por que passa um casamento. E sobre tudo o que pode acontecer no dia-a-dia.
(by Luís Mateus)