Uma Londres dividida de alto a baixo
E se lhe dissessem que uma das mais conhecidas cidades da Europa está dividida ao meio? Bem, Berlim também esteve, não seria nada do outro mundo. Mas e se não fosse ao meio num plano horizontal, mas sim vertical? Se lhe dissessem que existe uma Londres-de-Cima e uma Londres-de-Baixo, acreditaria? Um Londres real e uma Londres no submundo, esquecida entre as linhas de metropolitano? Neil Gaiman parte deste conceito para criar um romance onde a ficção mais próxima da realidade se confunde com outra, a caminhar para o fantástico.
Door cai aos pés de Richard, que caminha ao lado da noiva, Jessica, pela cidade, rumo a um jantar importante. O encontro com essa rapariga em fuga, que possui a estranha habilidade para abrir portas mesmo onde não existem, transporta-o para outra dimensão. Um mundo onde há gente que-fala-com-ratos, anjos, uma chave guardada por monges e duas personagens maléficas – Mr. Croup e Mr. Vandemar –, que matam a cada esquina.
Door procura o autor moral da morte de toda a família, sabendo, por intuição, que Croup e Vandemar foram os autores materiais. Richard vê o seu mundo mudar, sem ninguém que o reconheça, inclusive Jessica, e sem dinheiro e a vida habitual, após o contacto com a estranha rapariga ferida.
Entre o sorriso e o arrepio
“Neverwhere – Na Terra do Nada”, editado em Portugal pela Presença, é um livro bem conseguido. Divertido. Por vezes, aterrorizador. Tão aterrorizador como Croup e Vandemar podem ser na escuridão dos túneis. O grupo improvável – Richard, um campónio que veio trabalhar para a cidade; Door, uma rapariga com poderes telecinéticos; um marquês, De Carabas, com sete vidas; e uma “amazona”, a que chamam Caçador, contratada como segurança de Door – tenta devolver a chave a um anjo.
O segredo de Gaiman é conseguir manter sempre ténue a fronteira entre a ficção-realidade e a ficção-fantasia. Ao segurar com rédeas firmes a imaginação, o autor mantém o leitor agarrado à terra numa história sobre um mundo irreal.
(by Luís Mateus)
“O Dia em que Matei o Meu Pai” é o romance de estreia de Mario Sabino, editor-executivo da revista “Veja”. Um livro que quer perturbar...
O grunge nasce e poderá ter morrido com os Nirvana. Nasce e perde fulgor depois de um primeiro álbum: “Nevermind”. Nasce e morre com o suicídio de Kurt Cobain, o vocalista, três anos depois. Em 1991, Michael Jackson é destronado pelo polémico vinil de capa azul, com um bebé a nadar atrás de uma nota de dólar, no top norte-americano. A banda, nada e criada em Seattle, alcança um sucesso inesperado.




Fecha-se o livro, olha-se no vazio. As imagens da última página persistem ainda com o esfregar das pálpebras. Uma frase – “Eu sou legião” – ainda ecoa quando se olha para a contracapa. Ainda treme na vista, perante a avalanche de acontecimentos, pelo desabar de encontros, pela esperada (sim, esperada) sucessão de fins que se tornam um. Três histórias, Bogotá como centro do pecado, como antro de um anjo exterminador que chega para expiar os males do mundo. Três histórias, independentes e subitamente alinhavadas, unidas, intensas.
