segunda-feira, janeiro 31, 2005

Lobo Antunes, o treinador ideal

Li recentemente uma entrevista do eterno quase-Nobel António Lobo Antunes. Aviso já que sou fã, que devorei "A Morte de Carlos Gardel" e o "Não Entres tão Depressa nessa Noite Escura", fechando cada livro com cuidado não fosse desassossegar o génio que vive naquelas páginas. Mas não é por isso que escrevo. Escrevo porque uma frase despertou-me para o que já vi tantas vezes por esses estádios. Era mais ou menos assim: "Como não tenho talento, tive de trabalhar muito".

O que tem isto que ver com o futebol? Tudo. Fez com que lembrasse a infância, ou melhor os inícios da adolescência, já que acordei tarde para o jogo da bola. Fez com que lembrasse como passei das galochas à chuva, tratando o cautchú com pés-de-tijolo, para a suavidade dos ténis de pano, com dribles bonitos, trabalhados a partir das jogadas da TV ou de VHS alugados no videoclube. Lembra-me que se nasci com talento para o couro a culpa de não se perceber não era das galochas. Era minha. Tive de trabalhar o meu talento. Primeiro, plagiando. Depois, criando.

Lembro-me que era um zero com o pé esquerdo com as galochas calçadas, avançando a toques de direita como se fosse a galope de um cavalo invisível. Lembro-me do treinador a perguntar-me anos depois, após o primeiro treino: "És canhoto? Não? E fintas com o pé esquerdo?". Lembro-me de marcar grandes golos assim, de treinar pontapés de bicicleta e cabeceamentos de cima para baixo, de inventar fintas com o calcanhar. Hoje, corro mas não saio do mesmo sítio. Hoje, sei que trabalhei o meu talento e esqueci-me de emagrecer.

Assusta-me encontrar falhanços que a ansiedade por si não explica. Jogadores que nunca dominaram a bola ou marcaram golos com o pé esquerdo, que nunca festejaram golos de cabeça. Jogadores que nasceram assim, mas que nunca quiseram ser melhores do que são. Perdoa-lhes, António! Eles não sabem o que fazem. Talvez se tu fosses treinador...
(by Luís Mateus)

Assis, um bom 9 e meio

Não podia ter desejado melhor estreia. Titularidade, um golo, palavras elogiosas do treinador. Nuno Assis colocou bem alta a fasquia no primeiro jogo com a camisola do Benfica e agora tudo o que fizer tem de andar próximo do encontro de Guimarães. Tem talento para isso, mas sabe que um passo em falso pode custar-lhe o estado de graça perante os exigentes adeptos encarnados.

Quem pensa que Nuno Assis é um tradicional número 10 está enganado. No limite, trata-se de um nove e meio, nem avançado-centro nem fantasista, para lembrar esse epíteto atribuído em Itália a quem tem mais talento que os outros e faz jogar em redor de si a própria equipa, como Rui Costa.

Para nove e meio, o ex-vimaranense nem está nada mal. Marca os seus golos, não é egoísta à frente da baliza e tem pulmão para correr pelos pedaços de relva onde as duas espécies - o 10 e o 9 - costumam saborear o seu jogo. Talvez por isso tenha sido uma boa ideia. Talvez por isso e pelo talento que não se pode negar-lhe, pode vingar na Luz. Mas ele sabe que terá de resistir às ondas e às paixões dos quatro anéis do novo estádio. E sabe também que quanto maior for a responsabilidade maior será o risco de desiludir.

Cinco razões para o F.C. Porto estar como está (...ou cinco passos de um ciclo vicioso)

O F.C. Porto está em crise porque

1) Não tem política desportiva, compra ao desbarato (Leo Lima para o lugar de Carlos Alberto, Leandro para o de Rossato, Pitbull para o de Derlei - o plantel tinha melhores soluções do que agora parece ter, apesar de se reconhecer talento nos reforços);

2) Fernández não contraria a "política desportiva" e põe os novos a jogar(As sucessivas mudanças criam instabilidade no grupo e o treinador espanhol não serve de factor de equilíbrio entre novos e velhos. Ao não dar aos reforços um "estágio" antes da estreia, Fernández dá a entender aos mais antigos que o seu tempo no onze já era);

3) O treinador ainda não percebeu o que quer fazer da equipa(Talvez devido à constante entrada e saída de jogadores, Victor Fernández continua a fazer muitas alterações. Para uma equipa que ainda não está perto dos 80/90 por cento do seu potencial, isso é um risco enorme);

4) A equipa joga em explosões de individualismo(Com novos elementos em cada encontro, o jogador portista não tem rotinas criadas com a maior parte dos companheiros. Como, sobretudo em casa, a pressão é maior, está obrigado a tentar decidir tudo sozinho. Por vezes resulta, na maior parte dos casos não);

5) Há pressão a mais no Dragão(Os adeptos do F.C. Porto estavam habituados a ganhar por causa de Mourinho. Este ano, a fasquia estava demasiado alta. A pressão sobre quem ficou também. As derrotas geram derrotas, a intranquilidade gera intranquilidade, o sobressalto faz com que se regresse ao mercado para tentar voltar a equilibrar o plantel). Seguir para o ponto 1

(by Luís Mateus)

quinta-feira, janeiro 27, 2005

O contraditório do bibota

O bibota Fernando Gomes teve aqui há uns anos uma expressão que marcou o futebol. Pelo menos uma parte dele. Disse já não me lembro bem porquê, nem qual o contexto, que um golo é como um orgasmo. Passados estes anos, e como ninguém avançou com o contraditório, faço aqui uma tentativa: "Se isso é verdade, então um autogolo é como ficar com o dito preso no fecho éclair".(by Luís Mateus)

O futebol é...

... marcar autogolos com classe, o guarda-redes a voar para uma bola à qual sabe que não vai chegar, jogar de meias caídas porque dá estilo, usar guita para o cabelo para chutar do meio da rua, ter adesivos no nariz para correr mais que os outros, inventar inclinações no campo quando se perde, um árbitro a cair sempre em fora-de-jogo ou aquele lançamento de linha lateral com a bola a escorregar das mãos. É gritar e dar murros no prato de tremoços e entornar a imperial, é atirar o telecomando à televisão e tentar fazer zapping com este estragado quando se está a perder, é mandar sms aos amigos a gozar com eles e vestir a camisola do nosso clube na segunda-feira de manhã. É gritar Goloooo aos saltos e puxar as calças para cima pelo descuido. O futebol é isto mesmo. Salvo seja.(by Luís Mateus)

O ponto G das balizas

O orgasmo do bibota alertou-me para outro aspecto da complexibilidade do futebol. Aposto que o tal de Grafenberg andava bem mais obcecado com o seu humano objecto de estudo - e ainda bem para ele! - do que com o toca-e-corre do couro. Por isso, tenho a certeza de que nunca se lembrou disto. Se, como diz o Fernando, um golo é como um orgasmo, a baliza também há-de ter algo a ganhar com isso. Mas, com tantos metros de alto e largo, onde será o seu ponto G?

Acho que os brasileiros é que devem entender da coisa. Não é por acaso que são pentacampeões mundiais. A minha teoria é que eles perceberam mais cedo do que os outros como se tornar os favoritos das balizas: andam ali à volta, a apalpar terreno, em fintas, dribles, passes, passos à frente e atrás, antes do tal orgasmo do golo. São amantes perfeitos e, claro, a baliza gosta mais deles.P.S. Se esta teoria for provada, não sei o que vamos fazer a todas aquelas t-shirts estampadas com a frase "Portuguese do it better".
(by Luís Mateus)

O Oráculo de Auster

O melhor livro do norte-americano Paul Auster chegou a Portugal no final de 2004, mais uma vez com a chancela da Asa: “A Noite do Oráculo”. Excelente contador de histórias, um dos nomes cimeiros da literatura nos Estados Unidos, Auster aposta na constante luta entre o presente e o passado para tema central da sua última obra. O resultado é um livro refrescante e inteligente.

Quase 19 anos depois de “A Trilogia de Nova Iorque”, obra de estreia bastante aplaudida, “A Noite do Oráculo” está recheada com o melhor que o escritor pode oferecer ao público: um discurso simples e fluente, capaz de prender o leitor da primeira à última página. Obra-prima, claro. Por ser a última, porque Paul Auster pode (e sabe que pode) dar muito mais.

Um “morto” que regressa à vida e um amigo que deseja a sua morte. Um triângulo amoroso. O pano de fundo, disfarçado por um caderno azul, fabricado em Portugal e comprado numa loja chinesa, que dá início a um conjunto de tramas e sub-tramas hipnotizantes e que pouco têm que ver com o título escolhido por Auster para o romance. No fundo, um oráculo onde se redescobrem as relações humanas a partir do passado e não se vislumbram revelações do futuro.

É deliciosa a forma como Paul Auster descreve a relação entre o narrador, Sidney Orr, e a mulher Grace. Um dos grandes momentos do livro, que peca pelas longas notas de rodapé, com os “parêntesis” que o escritor quer afastar definitivamente do curso do livro. “Escrever não é mais uma questão de liberdade, mas de sobrevivência” (frase que ilustra o site oficial do escritor, em www.paulauster.co.uk). E nós sobrevivemos com ele.
(by Luís Mateus)