quinta-feira, maio 19, 2005

A vida reflectida por uma gota no pára-brisas

Depois de “Campo de Sangue”, Dulce Maria Cardoso editou recentemente “Os Meus Sentimentos”, um excelente livro, também com a chancela da Asa, que se passa nos minutos que demora uma mulher (Violeta) a morrer, após um acidente de automóvel. Quase mórbido, mas ao mesmo tempo bastante distante de o ser. Triste, como as cores (castanho e branco) que fazem a capa. Uma história de vida. O segundo exemplo de que a autora está na linha da frente dos autores portugueses.

A ilustração de uma vida, presa no reflexo de uma gota de água que permanece em suspenso no pára-brisas, é conseguida pelo regresso lento ao passado, a uma vida infeliz, mas distorcidamente feliz, a relações complicadas (com os pais e com a filha), à conturbada visão de o espelho lhe devolve e a faz procurar o sexo com desconhecidos, e a um tempo de mudança (pouco depois do 25 de Abril de 1974).

Dulce Maria Cardoso garantiu em entrevistas que o seu livro não é mórbido, apesar de ter o fim da vida como tema. “Escrevo sobre a morte para celebrar a vida”, disse. E “Os Meus Sentimentos” é isso mesmo: uma dissertação sobre um modo de viver. O pai de Violeta escolhe a mãe para casar, apesar de ter uma relação com outra mulher, da qual nasce um rapaz. A mãe permanece com a cabeça e o estilo de vida amarrados aos tempos que antecederam a Revolução. O rapaz alia-se aos movimentos revolucionários e confronta o pai. Mais tarde, conhece Violeta e do relacionamento nasce uma menina. Violeta e a filha estão cada vez mais afastadas, talvez por culpa da progenitora, cujo estilo de vida não é o mais exemplar. Gorda, muito gorda, procura sexo ocasional em estações de serviço e em outros locais. A morte surge na estrada, mas o coração parece continuar a bater indefinidamente.

“Os Meus Sentimentos” é um excelente livro, muito bem escrito. Trabalhado até à exaustão. Talvez por isso, em alguns momentos, faça lembrar António Lobo Antunes. Tão cheio de emoções que, no fim, bate-nos com a força de uma maré enorme de tristeza. Pela vida. Pela mulher que tem o “nome de uma flor que também é uma cor”. Violeta.