terça-feira, maio 03, 2005

É possível ser mais forte que o mar

Um peixe, a solidão do mar, uma doença mortal. A luta pela sobrevivência. O velho Santiago lança-se ao alto mar, em redor de Havana, Cuba, para provar aos mais jovens que, depois de 84 dias sem pescar qualquer peixe, ainda tem o instinto e a perícia necessários para não voltar com a proa vazia. Com uma nova isca, feita por um jovem amigo, o aprendiz e antigo companheiro de pesca Manolín, prepara-se para capturar um peixe-recorde, com mais de cinco metros de comprimento.

A luta entre Santiago – que durante este tempo se alimenta do que consegue apanhar – e o peixe testa os limites de resistência de ambos. Mas, finalmente, o velho pescador é bem sucedido. Amarra o espécime ao barco e viaja para terra. Santiago está disposto a mostrar a todos que ainda está vivo, que ainda consegue ser bom na sua profissão. “A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente”, começa Hemingway o seu relato poético, em jeito de profecia.

O pescador, cansado e esfomeado, ainda não ganhou a guerra. Mais pesada e depois de arrastada para uma rota desconhecida, a embarcação está mais lenta na viagem de regresso. Atraídos pelo sangue da conquista de Santiago, os tubarões atacam à vez, transformando o peixe em esqueleto. O velho vai ganhando batalhas, mas sabe que a derrota é iminente. Porque o sangue atrai mais e mais tubarões vorazes.

Esgotado, Santiago chega à praia de onde partiu. Quebrado por dentro, depois de cuspir um líquido estranho. Vai para o pobre casebre onde vive, derrotado. Com o amanhecer, outros pescadores vêem o barco atracado, com o esqueleto do peixe amarrado num dos lados. O comprimento do peixe traz ao velho a admiração de todos.

“O Velho e o Mar”, publicado em 1952, garantiu a Ernest Hemingway o prémio Pulitzer. Dois anos mais tarde, o escritor norte-americano recebeu o Nobel da Literatura. Grande clássico da ficção contemporânea, é um dos livros que nos fica para sempre. Que nunca esquecemos. Uma obra perfeita em todos os seus momentos. Que podemos interpretar de maneira diferente. Talvez por isso, foi agora reeditado pela Livros do Brasil. Em boa hora, para quem nunca o leu.