quinta-feira, maio 12, 2005

O amor nos tempos de guerra

O amor, outra vez. O encontro, a paixão, a separação, a sensação corrosiva de vazio, o reencontro. Quase um ano depois de “Romance em Amesterdão”, Tiago Rebelo edita o seu sexto trabalho de ficção. “Encontro em Jerusalém” é, muito provavelmente, o melhor livro do autor, que a editora (Presença) classifica como o Nicholas Sparks português, comparando os números das vendas.

Os best sellers são muito raramente amados pela crítica. “Encontro em Jerusalém” não deverá alterar a ideia já formada sobre Tiago Rebelo: pouco literário, de escrita fácil e populista, com o amor sempre como ponto de partida e chegada dos seus livros. Mas a nova obra é mais do que uma viagem por um romance entre duas pessoas. A complexidade sangrenta da guerra, vista de um lado neutral por quem apenas relata, a dor do aborto como potenciadora da destruição de um casamento e a vida diária de quem arrisca a vida por uma história a contar alargam os horizontes deste livro.

Afonso e Francisca são dois jornalistas, dois repórteres de guerra, que se encontram em Jerusalém (daí o título). Os dois testemunham a violência e a tensão crescente entre israelitas e palestinianos, mas são expulsos do país porque uma fotografia faz capa em Portugal. Apaixonam-se e viajam juntos para Sarajevo, onde fogem aos disparos dos franco-atiradores, testemunhando o horror de uma guerra que não poupa ninguém, nem mulheres e crianças. O regresso a Jerusalém acontece mais tarde, já com Francisca grávida.

Tiago Rebelo transforma uma praça de Jerusalém no cenário principal do romance. A linguagem, quase cinematográfica, tem aqui o seu ponto alto. Francisca espera por Afonso numa esplanada e não sabe que, poucos metros à sua frente, uma mulher-bomba pensa no que está para acontecer. A polícia, alertada, descobre-a, mas uma bala menos feliz provoca a explosão. Francisca – que já pegara na máquina e começara a fotografar febrilmente - cai para trás. Depois descobre que perdeu o bebé, mais tarde é-lhe dito que não pode mais ter filhos. É o princípio do fim da sua relação com Afonso.

“Encontro em Jerusalém” lê-se num ou dois dias. Um trabalho mais atento de revisão e edição poderia ter resolvido alguns dos seus problemas. Mas Tiago Rebelo parece estar no bom caminho, este livro é melhor que o último. Se o próximo for melhor que este...