sexta-feira, abril 22, 2005

Romana Petri (entrevista): "Quis consolar os filhos e punir os pais"



É um dos nomes do momento da literatura italiana. Romana Petri edita o seu quarto livro em Portugal, escrito em 1999, “para consolar os filhos e punir os pais violentos”.

- Como nasceu “Os Pais dos Outros”, as personagens, as histórias?
- Escrevi este livro em 1999. Sou uma escritora biográfica, mas também autobiográfica, porque há sempre um pouco de mim nos meus livros. Mas estou mais interessada nas histórias dos outros. Estas são histórias que conheci na minha vida. Histórias de alunos meus, inclusive. O pai de Giovanni, por exemplo... Junta-se sempre ficção quando se escreve, mas Giovanni foi um aluno meu, que vivia em permanente conflito com o pai. Tornou-se homossexual para lhe fazer a desfeita. Depois voltou à sua natureza, ser heterossexual. Um livro não se sabe como acontece. Começou com um conto, depois achei que devia continuar, como uma espécie de vingança contra a injustiça: uma consolação para os filhos, uma punição para os pais.

- Revoltou-se enquanto escrevia?
- Sim, um pouco. É um livro muito forte, cruel, de grande violência, em que me coloco do lado dos filhos. É que sou filha e mãe ao mesmo tempo. Os pais são fundamentais na educação dos filhos. Somos 50 por cento o que nossos pais fazem de nós. Isto gera uma grande revolta. Nos casos de Mário e Sandro conto como eles chegaram à vingança. A violência gera violência. Os filhos dominam os pais. A violência pode transformar o dominador em dominado. A psicologia moderna diz que os pais violentos geram filhos violentos. Este livro também é pouco a história da Itália da II Guerra Mundial até aos nossos dias. Houve uma mutação na paternidade. Após a guerra, o meu país era muito campestre, muito conservador. No último conto, que teve uma tradução difícil, tento mostrar essa transição. O pai de Nicola castiga o filho enquanto diz palavras em latim. Nicola torna-se pai. Há uma grande mudança. Ele percebe que não tem de bater para ensinar, apesar de manter as mesmas frases em latim.

- Sentiu alguma vez vontade de parar de escrever?
- Não. Fiz uma pausa ao escrever uma história boa. Não acho que todos os pais sejam maus. São uma minoria, mas isso não torna a situação menos grave. Este livro é também uma denúncia, uma acusação aos pais e também às mães que ficam caladas. Neste livro, são como sombras. As mulheres têm de se revoltar. Não podem ser cúmplices.

- Confúcio dizia que todos os homens nascem bons, Rousseau acrescentou que a sociedade é que os corrompe; acredita que todos os pais nascem bons?
- Sou mais da opinião de Diderot. Os homens nascem com virtudes e defeitos. No meu livro “Esecuzioni” [Execução], que vou editar em Portugal provavelmente no próximo ano, uso uma frase dele: “Os homens maus não têm de ser punidos, têm de ser eliminados”. Depois, o lugar e a família influenciam muito. Há irmãos que são completamente diferentes. Há ainda o ADN, que tem uma grande importância naquilo que somos. O que é verdade é que pais cruéis podem gerar pais cruéis. Este livro avisa que a violência pode gerar violência. Também tem alguma psicologia: as crianças são seres humanos muito fracos, temos de formá-los e não de os destruir. É inacreditável que a maior parte da violência da nossa vida exista na própria família. É importante termos uma raiz forte, que nos permita sobreviver. Nos meus livros, nunca falo de casais separados. Não é preciso que haja divórcios para que exista violência. Prefiro uma família separada feliz, do que uma junta infeliz.

- Disse uma vez, numa entrevista, que “o literário é perpétuo, a realidade dissolve tudo”. Foi por isso que escreveu este livro, para que o aviso seja perpétuo?
- A vida e a literatura são muito diferentes. Viver de uma forma literária é ridículo. Mesmo um escritor muito inteligente, se viver dessa forma perde a inteligência. A verdade é que o livro fica e a realidade passa. A literatura serve para fazer passar uma mensagem. Mas detesto todos aqueles que se acham Dostoievski. É preciso que haja humildade. Eu gosto do que faço, não tenho como ambição deixar um traço importante na história. Tenho uma visão muito lúdica da escrita, apesar de ser calvinista e moralista. Gosto de maridos fiéis, separar o bem do mal... Neste mundo que está a perder a moral, não faz mal que seja assim.

- Que reacções tiveram Avelina, Giovanni, Gualtiero, Gaetano, por exemplo, quando os reencontrou após ter publicado o livro?
- Não os encontrei a todos. Há histórias de há muito tempo. Nunca consegui escrever nada no presente. Pode ser que algum deles tenha lido o livro. Mas há sempre duas opiniões: ou se gosta ou se detesta. Os pais devem ter ficado chateados, os filhos mais contentes. Se alguém se reconhece no que está escrito no livro, a culpa não é minha.

- “Os Pais dos Outros” já venceu alguns prémios em Itália. O que seria para si o sucesso em Portugal?
- Não sei. Todos os livros impressos estão nas livrarias. Isso é bom sinal. O livro também é muito forte no aspecto psicológico. A maioria já teve problemas com os pais. O primeiro conto, que é quase um prefácio, é sobre o meu pai e ele era um bom pai, no sentido de que gostava muito de mim. Mas todos têm algum tipo de problema.
(Versão uncut da entrevista publicada hoje no jornal Metro, by Luís Mateus)