sexta-feira, abril 22, 2005

Romana Petri (entrevista, II): "Saramago mudou a minha visão do amor"

- “A Senhora dos Açores” passa-se no Pico e tem outro romance com a ilha das Flores como cenário, “Um baleeiro dos montes” [editado pela Salamandra em Portugal]. Em “Uma Guerra na Úmbria” há uma passagem em que Alcina ouve de um companheiro de armas a letra do fado “Perseguição”. A ligação com Portugal parece muito forte. Vai voltar a escrever sobre este país?
- Nesta altura, estou já a escrever uma continuação de “A Senhora dos Açores”. Isto porque, na Feira do Livro, uma miúda veio ter comigo e apresentou-se como a sobrinha de João Freitas, personagem principal e que existe mesmo. Disse-me: “O meu tio casou-se”. No primeiro livro, há um conflito entre a turista e o João Freitas, que luta também com o fantasma da mulher falecida. Fiquei muito desiludida com o que me disse a rapariga. Estive no Faial e quis ir de barco para o Pico, mas não consegui por questões de agenda. No livro, imagino-me a ir ao Pico para discutir com ele. Num dia inteiro, consigo convencê-lo de que ele fez mal em casar-se outra vez, mas ele também me convence que fez bem... Estava a pensar em chamá-lo “Açores assim” ou “Ainda nos Açores”, mas ainda não sei. Vou editá-lo só aqui, em Portugal.

- Sente-se mais portuguesa que italiana?
- Gosto mais de estar aqui do que no meu país. Gosto muito de Itália, mas somos sempre mais críticos em relação ao país onde nascemos. Aqui há mais tranquilidade, menos violência, mais paciência. Aqui há uma depressão saudável. Gosto muito do silêncio. Portugal tem qualidades do Sul e do Norte da Europa: as pessoas são de temperamento mediterrânico, mas com uma discrição do Norte. Em Itália, é impossível unir as duas coisas.

- O que faz com que não pegue nas malas e venha de vez para cá?
- O trabalho, o meu filho. Mas passo muito tempo em Portugal, até porque estou a publicar agora apenas na língua portuguesa, para aqui, para o Brasil e para África.

- Algum escritor português a inspirou em algum dos seus livros?
- Não sei quantificar as influências. Mas gosto imenso de José Saramago. O “Memorial do Convento” influenciou muito a minha visão do amor. Também gosto de António Lobo Antunes, mas é muito cerebral, denso. Acho que é sempre muito parecido, além de escrever demais. E depois há os clássicos: Camilo, Eça, Camões. Adorava a Sophia de Mello Breyner Andresen. “A minha alma é feita de maresia”. É um verso dela.

- Nos seus livros, as personagens têm muita força, as descrições tornam-nas quase reais. Mas, ao mesmo tempo, há sempre algo de transcendental, de mágico, de fantasia. É difícil conseguir este equilíbrio?
- Eu própria sou assim. Muito materialista e, ao mesmo tempo, fantasiosa. Isso reflecte-se nos meus livros. Há sempre esta mistura. Uma interacção entre vivos e mortos.

- Acredita fazer parte de alguma corrente literária?
- Acho que sim, apesar de não dever ser eu a dizê-lo. O realismo mágico não surgiu na América do Sul, sempre existiu na literatura. Formei-me a ler romances de cavalaria sobre a Idade Média. O meu livro preferido é o “D. Quixote” de Cervantes. Mais uma vez, há essa mistura entre o fantástico e o real. A realidade parece-me sempre um pouco pobre e, por isso, junto-lhe alguma imaginação. Para mim, a escrita é como atravessar um rio. Moro deste lado, mas, de vez em quando, preciso passar para a outra margem para ver as coisas com outra perspectiva.

- Em todos os seus romances conta o mal dos outros. Para quando um livro autobiográfico?
- Escrever sobre os outros é ser altruísta, mais generosa. Os escritores mais biográficos que autobiográficos escrevem mais. De resto, há sempre algo de nós em todos os livros.

(by Luís Mateus)