quarta-feira, abril 06, 2005

O jardim da Europa do futuro

O autor de “A Voz dos Deuses” e “A Encomendação das Almas” edita agora “O Jardim das Delícias”. João Aguiar mostra mais uma vez uma versatilidade que não está ao alcance de todos os escritores.

Do registo histórico – do já referido “A Voz dos Deuses”, de “A Hora de Sertório” e “Inês de Portugal” -, passando pelo fantástico na obra de contos de “O Canto dos Fantasmas” e pela literatura mais apropriada a um público juvenil, da qual “O Sétimo Herói” é um bom exemplo, o antigo jornalista explora agora um quadro futurista. Uma Federação Europeia, “filha da União Europeia e neta da CEE”, pretende acabar com os traços mais nítidos do nacionalismo, em nome de algo a que chama “Coesão”.

João Carlos é o protagonista. Num mundo em que os carros andam com piloto automático, um jornalista da mais credenciada publicação portuguesa vê-se com uma bomba-relógio prestes a rebentar nas mãos. De um lado, os integristas querem fazer regressar o país aos seus traços únicos. Do outro, os federalistas esperam silenciosamente o momento certo para erradicar o movimento. O caos parece próximo, à medida que o repórter vai descobrindo, e divulgando, o que realmente se passa. A realidade torna-se, num ápice, um mundo paralelo, quase inexistente.

Um exercício sobre o futuro
“O Jardim das Delícias” é, ao mesmo tempo que reclama o estatuto de romance, um exercício mental sobre o que pode reservar o futuro a todos os cidadãos europeus. O final pode não ser o mais risonho, mas não deixa de ser um dos vários caminhos possíveis. Um caminho que assusta.

João Aguiar é um contador de histórias. Sabe-se, sente-se que adora contá-las. As palavras flúem naturalmente, agarram-se à leitura. E, resultado: as páginas devoram-se. Mas o autor parece ter parado na altura em que o seu romance estava perto de se tornar um “thriller”, tão na moda nos últimos tempos. E se há algo de que não possa ser acusado é de ser um dos nomes da moda. Nunca o foi.

O livro sabe a pouco. Como se lhe tivessem arrancado metade, depois de apenas nos ter introduzido na trama. Esse pecado, que até pode ter sido propositado, retira-lhe alguns elogios. O escritor até talvez já o sinta e prepare um livro de continuação. Os leitores mais fiéis merecem-no.
(by Luís Mateus)