terça-feira, abril 05, 2005

Nem carne nem peixe no meio do oceano

Um homem nasce numa viagem aérea entre Portugal e Brasil. Fica luso-brasileiro, nem carne nem peixe, para sempre. Vive entre os dois países, por desejo dos pais, fala com perfeição os dois sotaques e os muitos termos diferentes da mesma língua, mas não consegue criar raízes. Nunca ganha a sua identidade. Anos depois, após ter saboreado apenas um trago da felicidade, é raptado. Nessa casa-de-banho escura, perante a companhia cada vez mais temida de uma aranha, recorda uma vida repleta de amargura.

Paulo, filho de um pai novo-burguês, vira trotskista. Conhece uma mulher comunista, mas que vive segundo leis liberais, e tem um filho mimado que, pouco a pouco, se afasta dele. Regressa ao Brasil. Casa-se com uma especialista e experimentalista em sexo, que tem uma filha que pratica a auto-flagelação como filosofia de vida. Rompe com a mulher, cria afinidades com a rapariga, que o vê como um amigo. Talvez como pai. Para trás, ficou uma professora deformada por um acidente no churrasco, provocado pelo seu excesso de zelo, e uma colega que o achava atraente, mas que ele afastou devido a um medo que o perseguiu desde sempre.

O típico anti-herói
“Transatlântico”, de Paulo Nogueira, é um bom livro. Crítico por vezes, bem-humorado por outras. Fatídico quase sempre. Paulo é o puro anti-herói, do qual se adivinham sempre os finais infelizes. Mas a personagem torna-se apaixonante. Tão próxima e ao mesmo tempo tão distante de nós, de pessoas que amamos ou conhecemos. Paulo, um “brasuca” altruísta, que todos gostariam de ter como amigo, procura um rumo para a vida que lhe foge desde criança. Desiste da faculdade de Direito, torna-se cobrador de impostos. Desiste de ser justo na procura das igualdades sociais e encontra a catarse num veleiro. E no mar.

Já se disse que é bom. O sexto romance de Paulo Nogueira é mais que isso, é um livro surpreendente. Mas cria ao início uma relação difícil com o leitor. Como se houvesse dois ritmos, o autor deixa de abusar das comparações – às vezes chegam a ser duas numa frase – e passa a usá-las, mais lá para a frente, com mestria. Com inteligência. A obra torna-se assim melhor a cada página.

“Transatlântico”, editado pelas Publicações D. Quixote, não chegou só agora às montras das livrarias. Já será difícil que o apanhem em lugar de destaque. Mas, para quem esteja atento, não será muito complicado reconhecê-lo quando estiver de frente para a capa. É que se trata de uma das mais bem conseguidas dos últimos tempos. A prova, como se ainda faltasse, de que se trata de um livro cuidado.
(by Luís Mateus)