quinta-feira, março 31, 2005

Uma Londres dividida de alto a baixo

E se lhe dissessem que uma das mais conhecidas cidades da Europa está dividida ao meio? Bem, Berlim também esteve, não seria nada do outro mundo. Mas e se não fosse ao meio num plano horizontal, mas sim vertical? Se lhe dissessem que existe uma Londres-de-Cima e uma Londres-de-Baixo, acreditaria? Um Londres real e uma Londres no submundo, esquecida entre as linhas de metropolitano? Neil Gaiman parte deste conceito para criar um romance onde a ficção mais próxima da realidade se confunde com outra, a caminhar para o fantástico.

Door cai aos pés de Richard, que caminha ao lado da noiva, Jessica, pela cidade, rumo a um jantar importante. O encontro com essa rapariga em fuga, que possui a estranha habilidade para abrir portas mesmo onde não existem, transporta-o para outra dimensão. Um mundo onde há gente que-fala-com-ratos, anjos, uma chave guardada por monges e duas personagens maléficas – Mr. Croup e Mr. Vandemar –, que matam a cada esquina.

Door procura o autor moral da morte de toda a família, sabendo, por intuição, que Croup e Vandemar foram os autores materiais. Richard vê o seu mundo mudar, sem ninguém que o reconheça, inclusive Jessica, e sem dinheiro e a vida habitual, após o contacto com a estranha rapariga ferida.

Entre o sorriso e o arrepio
“Neverwhere – Na Terra do Nada”, editado em Portugal pela Presença, é um livro bem conseguido. Divertido. Por vezes, aterrorizador. Tão aterrorizador como Croup e Vandemar podem ser na escuridão dos túneis. O grupo improvável – Richard, um campónio que veio trabalhar para a cidade; Door, uma rapariga com poderes telecinéticos; um marquês, De Carabas, com sete vidas; e uma “amazona”, a que chamam Caçador, contratada como segurança de Door – tenta devolver a chave a um anjo.

O segredo de Gaiman é conseguir manter sempre ténue a fronteira entre a ficção-realidade e a ficção-fantasia. Ao segurar com rédeas firmes a imaginação, o autor mantém o leitor agarrado à terra numa história sobre um mundo irreal.
(by Luís Mateus)