sexta-feira, março 18, 2005

Uma legião para exterminar o mundo

Fecha-se o livro, olha-se no vazio. As imagens da última página persistem ainda com o esfregar das pálpebras. Uma frase – “Eu sou legião” – ainda ecoa quando se olha para a contracapa. Ainda treme na vista, perante a avalanche de acontecimentos, pelo desabar de encontros, pela esperada (sim, esperada) sucessão de fins que se tornam um. Três histórias, Bogotá como centro do pecado, como antro de um anjo exterminador que chega para expiar os males do mundo. Três histórias, independentes e subitamente alinhavadas, unidas, intensas.

Um pintor (Andrés) que pinta um futuro terrível em auto-retratos, um padre (Ernesto) com vocação, mas sem imunidade às tentações das mulheres, uma jovem (Maria) que abandona uma vida de amarguras para enganar homens ricos. O realismo puro em cada frase, uma miúda possuída pelo Demo que lembra Linda Blair do “Exorcista” de William Friedkin (1973), as histórias em avanços paralelos nos capítulos. O embalar para uma leitura febril. A consciência de que se está perante algo único, que não se quer deixar, pousar na mesinha de cabeceira, mas sim dar a mão às palavras até às últimas consequências. Sejam elas quais forem.

É assim “Satanás”. Uma surpresa da Temas e Debates para o início do ano, um dos melhores livros lançados em Portugal nos últimos meses. O nome não inspira a compra, a capa não tem as cores da moda. Não se vê nas montras das livrarias. Como se fosse uma obra marginal, incómoda, esquecida propositadamente pelos espaços comerciais. Mas vale a pena encomendá-lo, pedi-lo por catálogo, perguntar por ele numa feira do livro. Vale a pena porque sim. Porque o colombiano Mario Mendoza já é considerado um dos grandes nomes da literatura sul-americana, digno sucessor dos compatriotas Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez. Porque o livro é realmente bom. Como se faltasse um pouco para ser grandioso, mas merecendo estar na primeira fila da biblioteca lá de casa.

É um livro que não se deve ler sozinho. Porque se gosta ou pode detestar-se. Porque mexe connosco. E esse é o melhor elogio que lhe pode ser feito.
(by Luís Mateus)