quarta-feira, março 30, 2005

Matar pode ou não dar felicidade?

“O Dia em que Matei o Meu Pai” é o romance de estreia de Mario Sabino, editor-executivo da revista “Veja”. Um livro que quer perturbar...

“’Venham-me prender. Matei o meu pai’, e desliguei o telefone”. O dia-a-dia de um assassino - com um livro chamado “Futuro”, escrito pelo próprio e transformado parêntesis no meio da trama - até ao dia do crime. Uma confissão relatada no divã de uma psicóloga, a quem se tenta impressionar. A procura de uma justificação para um disfarçado complexo de Édipo, para a força encontrada antes de desferir duas pauladas no cocuruto do progenitor. Um parricídio, contado de forma fria, quase factual, pelo filho humilhado. É assim “O Dia em que Matei o meu Pai”, do jornalista brasileiro Mario Sabino.

O assassino, que se salvou da prisão por alegada demência, procura com ajuda psicológica encontrar ele próprio as razões que o levaram a matar o pai. Ou talvez já as conheça e as viagens mentais feitas na companhia da analista sirvam apenas para alimentar o seu alter-ego. Talvez nem tudo seja verdade, como ele próprio admite depois de algumas divagações. O monólogo - será que a médica está mesmo presente enquanto relata a sua história? - continua, no entanto, por um mundo estranho, escuro e por vezes inquietante. O discurso divaga entre filosofias de vida.

Dois livros paralelos
O livro introduzido a meio do romance traz outra história, paralela. “Futuro” também trata de perversão e de morte. É outra história, também sombria, dentro da trama principal. A mente de um assassino em jeito de romance. Uma viagem diferente, ficção dentro ficção. O mesmo tema, com causas diferentes e finais semelhantes.

O escritor diz, em jeito de conclusão, em jeito de aviso aos leitores portugueses, que a boa literatura é movida pela infelicidade. E o parricida é um filho infeliz. Um marido infeliz. A soma de negativos dá, inevitavelmente, um assassino feliz.
(by Luís Mateus)