segunda-feira, março 21, 2005

Como ser triste com palavras doces

Vinte anos depois. Finalmente. A melancolia das palavras do japonês Haruki Murakami pode finalmente ser admirada em Portugal. Uma obra-prima (“Norwegian Wood”, Civilização Editora) e um livro “para recomeçar” (“Sputnik, Meu Amor”, Editorial Notícias) estão finalmente disponíveis. Foram lançados ao mesmo tempo e a primeira nota a sublinhar-se é uma pergunta: por que demoraram tanto tempo a chegar cá?

Os capítulos devoram-se num ápice. Murakami tem esse dom. Fazer com que o tempo passe sem que se coloque a hipótese de fazer uma pausa. Partindo dos mesmos temas – a solidão, o amor impossível, as lutas interiores – o japonês criou dois livros diferentes, mas com inúmeras pontes de ligação. “Norwegian Wood” é um livro intenso e sensual, que não abandona o leitor mesmo depois de se virar a última página. As palavras são pensadas para tocar fundo na alma. A partir de uma canção dos Beatles nasce um triângulo de amor.

“Tive uma vez uma mulher,/ou será que devo dizer/que foi ela que me teve?/Mostrou-me o seu quarto,/não é bom?/Norwegian Wood (bosque norueguês)/(…) e quando acordei/estava sozinho,/este pássaro voou,/então acendi um cigarro,/não é bom?/Norwegian Wood.” É assim que começa e acaba a canção dos Beatles. E é assim que começa o livro de Murakami. É nesta solidão que três personagens (Toru Watanabe – o narrador -, Naoko e Midori) se debatem com a vida e a morte.

O aperitivo e a obra-prima

“Sputnik, Meu Amor” é um livro de um escritor maduro. Linear, simples, mas belo ao mesmo tempo. Capaz de comover também. Mais um triângulo: o narrador gosta da irreverente Sumire, que, por sua vez, se apaixona pela mais velha Miu. O título da obra explica-se nos primeiros capítulos: Miu não conhece o movimento literário “beatnik” e confunde-o com o satélite. A partir daí, a charmosa coreana toma o epíteto de “Sputnik, meu amor”.

As personagens de Murakami confundem-se entre livros: os dois narradores, Miu e Reiko, que estudaram piano na infância e tiveram de abandonar a prática, as irreverentes Sumire e Midori). “Sputnik, Meu Amor”, paradoxalmente por ter sido o último a ser escrito, é um excelente aperitivo para “Norwegian Wood”. E este último vale muito a pena.


(by Luís Mateus)