terça-feira, fevereiro 22, 2005

Zé, o joga-no-pé

Durante a maratona da noite eleitoral, ouvi de longe que o futuro primeiro-ministro José Sócrates terá admitido, ou alguém por ele, o seu benfiquismo. Pensei de imediato: para que raio foi o futebol para aqui chamado?

O discurso de vitória do socialista foi dos mais insossos que ouvi, mesmo se lhe juntarmos tudo o que habitualmente se diz antes, durante - um insulto ou um palavrão pode ser por vezes um grande exercício de retórica - e depois do pontapé na bola. Sócrates, o político (não confundir por favor com o antigo internacional brasileiro e, já agora, com o pai de todos eles, o filósofo), fez-me lembrar aqueles jogadorzecos, que, depois de um grande passe de um companheiro ao qual não conseguiram chegar, ficam a apontar para o quinto metatarso do pé que está mais à mão a indicar o lugar para onde devia ter ido a bola.

Convenci-me. Sócrates é um joga-no-pé. Se fosse futebolista, não conseguiria usar a inteligência para prever o passe do companheiro, não gostaria sequer de ser posto em causa por um adversário, correria sempre em linha recta e nunca em diagonais. Iria acreditar até ao fim que tudo lhe cairia do céu: o meio-campo contrário passar-lhe-ia a bola, os defesas tropeçariam no guarda-redes e a baliza ficaria deserta. Depois aplaudiria... "Não te disse para jogares no pé?". (Passou-me agora uma terrível imagem pela cabeça: o Santana todo vestido de preto, inclusive a bandolete, como guarda-redes, e o Morais Sarmento e o Gomes da Silva, de meias apenas até aos tornozelos e chuteiras dois números acima a serem separados pelo ex-primeiro-ministro).

Sócrates não ganhou por ser Sócrates, ganhou por não ser Santana ou Portas. Não ganhou pelo que fez ou disse, mas pelo que os outros não fizeram ou disseram. É como um jogo entre o Brasil e as Ilhas Fiji: basta passar-lhes a bola que eles quase marcam na própria baliza. Se o futebol português parece ter evoluído nos últimos anos, com os títulos do F.C. Porto e o vice-campeonato da Selecção no Euro, ainda continuam a faltar trinta metros à política portuguesa.

(by Luís Mateus)