sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Um pontapé de bicicleta

É um dos momentos mais belos e raros, e também dos mais injustiçados do futebol. Todos nós rebobinamos e voltamos a passar na memória - depois de termos assistido em directo ou descoberto em resumos alguns (às vezes muitos) anos depois - a melhor defesa de sempre, interpretada pelo inglês Gordon Banks no Mundial de 1970 após cabeçada de Pelé, o golo de ângulo (quase) recto de Van Basten a Desaev na final do Euro 88, o slalom de Maradona no México 1986, o penalty picado do checo Panenka na final do Campeonato da Europa de 1976, o livre impossível de Roberto Carlos à França, o chapéu de Rui Costa na Luz frente à Irlanda... mas somos incapazes de recuperar em câmara lenta alguns dos mais belos golos de pontapé de bicicleta. Que injustiça para o mexicano ex-Real Madrid Hugo Sánchez, que fim-de-semana sim fim-de-semana não coleccionava um para o currículo! Lembro-me apenas que eram bonitos, de dar vontade de encher todos os dias os estádios onde ele jogava, mas pouco mais.

Para recuperar mentalmente um golo de bicicleta, sou obrigado a recorrer à ficção. A filmes como "Fuga para a Vitória" (Victory, de 1981), no qual Pelé decide desta forma o jogo com os nazis com menos uma costela e de braço ao peito, mas com força q.b. para mandar o jogo violento dos boches pelo cano. Ou "Hotshot", de 1987, com Pelé a ensinar um jovem norte-americano a fazer o tal overhead kick. O primeiro provou-me que os maus jogadores nesse tempo iam sempre para a baliza (Stallone), o segundo faz-me apostar que se os americanos percebessem muito mais de bola, os pontapés de bicicleta seriam quase tão obrigatórios no futebol como um "slamdunk" ou um "home run" em cada jogo de basquete ou de basebol.

A beleza do jogo parece ter desaparecido com o pontapé de bicleta. O futebol é mais rígido, tem menos arte. Que bom seria se clonassem o Leónidas para "fins medicinais" ou então se inventassem uma máquina do tempo para que pudesse voltar à altura em que depois de ter visto um golo do Hugo Sánchez tentava repetir o movimento na areia da Praia das Maçãs.

P.S.: Belos tempos. Lembro-me que estava a ficar perito a acertar no ângulo superior direito da omoplata esquerda do pai da minha namorada, para quem exibia todo o meu talento, quando a relação se deteriorou.
(by Luís Mateus)