quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Que raio de expressão, a pressão alta...

Uma expressão com a qual embirro, "pressão alta", ficou na moda por causa de Mourinho, quando a introduziu no vocabulário de pessoas interessadas em acompanhar as novas tendências. A partir desse momento, todas tentativas de pressing, apesar de variantes da utilizada pelo campeão europeu e nacional, foram invulgarmente chamadas assim.

Esta estratégia inteligente, utilizada pelo melhor treinador do mundo - a pressão como arma de recuperação de bola, quando o adversário arma jogo ainda no seu meio-campo, e que funcionava com duas vertentes: o abafar do estilo do opositor, ao retirar-lhe tempo para pensar, e o recuperar da bola para o contra-ataque quase sempre perigoso com menos metros para correr com ela - valeu muitos títulos ao F.C. Porto.

Tentar explicar os primeiros maus resultados da época - faço já a habitual vénia a acompanhar o pedido de desculpas por este post vir tarde de mais - pela ausência da "pressão alta" nos jogos orientados por Fernández e Del Neri terá sido uma conclusão demasiado superficial dos analistas. Juntando 2+2, acredito que se a pressão alta tivesse sido implementada em todos os jogos por outro treinador que não Mourinho o risco de fracasso aumentaria ainda mais.

Porquê? Porque o italiano, o espanhol e agora o português Couceiro não trabalham esta estratégia como o fazia o agora homem-forte dos blues. Nenhum deles tem Rui Faria, que aplicava em todos os exercícios físicos uma bola para atrapalhar, ou preparava as diagonais para aumentar a capacidade pulmonar durante os treinos num decalque do que lhes seria exigido nos jogos. Não é a toa que portistas e agora londrinos sabiam e sabem exactamente o que fazer. Eles transpiram e transpiravam o jogo por todos os poros.

Embirro com a expressão porque nunca vi outra equipa defender como o F.C. Porto/Chelsea de Mourinho, apesar de Sportings, Rios Aves e outras equipas terem aplicado em certos momentos modelos plagiados. Embirro porque se a pressão não for alta (não valem correrias loucas dos avançados a esfarraparem-se por uma bola à qual sabem que nunca vão chegar), uma pressão baixa significa a habitual marcação à zona ou individual para cá do meio-campo. Ou no limite, um carrinho de um defesa em desespero.

P.S. Se o futebol fosse um jogo de lego, bastava importar blocos de jogadores para a coisa funcionar. Não é, e até com algumas peças iguais, a imagem pode ficar retalhada, longe de um aspecto final. Só Mourinho é capaz de resolver os mesmos puzzles com peças de outras caixas.

(by Luís Mateus)