sexta-feira, fevereiro 11, 2005

A Índia, uma filha rebelde

À procura do controlo sobre o seu próprio destino. Para a bela Virmati e para a Índia dos anos 40 em “Filhas Rebeldes”, de Manju Kapur, livro editado recentemente em Portugal pela Presença. Um país à beira da “Partição”, da separação de uma Inglaterra em guerra com a Alemanha nazi de Hitler. Uma província, o Punjab (hoje Paquistão), em agonia depois da autodeterminação, a assistir à luta fratricida entre indianos muçulmanos e hindus. Uma jovem que luta contra o seu tempo e tradição familiar para poder estudar, ser autónoma e escolher a pessoa com quem pretende viver, contra a mãe e a mulher do amado.

Um romance cheio de sensualidade, no qual se pode saborear aos poucos a cultura de um país distante, de casamentos por anúncio ou de interesse familiar, onde um homem fala sempre para a mulher mais velha da sala, mesmo que se dirija à mais nova. Uma gastronomia que deixa água na boca, palavras deixadas pela tradução no meio do português, que aos poucos ganham sentido sem se ter de recorrer ao “maldito” glossário no final do livro.

Três gerações em discurso

Três gerações de mulheres narradas pela mais nova, a filha de Virmati. Virmati (e a Índia), a não revolucionária, a submissa, a bela, a impotente perante tudo o que lhe acontece, que ganha força com a vida, com as pessoas que a rodeiam, que a ajudam a lutar.

Um discurso embriagante por parte da escritora, que faz com que desejemos fechar o livro, guardá-lo numa mala até o voltarmos a abrir, num hotel distante, em Lahore, Tarsikka ou Amritsar, depois de termos apanhado o avião mais próximo no tempo. “Filhas Rebeldes”, primeiro romance de Kapur, recebeu o prémio da Commonwealth para a região asiática e foi nomeado pela mesma instituição para o de melhor primeiro livro e para o “Crossword Book Award”. Merece as distinções.
(by Luís Mateus)