quinta-feira, janeiro 27, 2005

O Oráculo de Auster

O melhor livro do norte-americano Paul Auster chegou a Portugal no final de 2004, mais uma vez com a chancela da Asa: “A Noite do Oráculo”. Excelente contador de histórias, um dos nomes cimeiros da literatura nos Estados Unidos, Auster aposta na constante luta entre o presente e o passado para tema central da sua última obra. O resultado é um livro refrescante e inteligente.

Quase 19 anos depois de “A Trilogia de Nova Iorque”, obra de estreia bastante aplaudida, “A Noite do Oráculo” está recheada com o melhor que o escritor pode oferecer ao público: um discurso simples e fluente, capaz de prender o leitor da primeira à última página. Obra-prima, claro. Por ser a última, porque Paul Auster pode (e sabe que pode) dar muito mais.

Um “morto” que regressa à vida e um amigo que deseja a sua morte. Um triângulo amoroso. O pano de fundo, disfarçado por um caderno azul, fabricado em Portugal e comprado numa loja chinesa, que dá início a um conjunto de tramas e sub-tramas hipnotizantes e que pouco têm que ver com o título escolhido por Auster para o romance. No fundo, um oráculo onde se redescobrem as relações humanas a partir do passado e não se vislumbram revelações do futuro.

É deliciosa a forma como Paul Auster descreve a relação entre o narrador, Sidney Orr, e a mulher Grace. Um dos grandes momentos do livro, que peca pelas longas notas de rodapé, com os “parêntesis” que o escritor quer afastar definitivamente do curso do livro. “Escrever não é mais uma questão de liberdade, mas de sobrevivência” (frase que ilustra o site oficial do escritor, em www.paulauster.co.uk). E nós sobrevivemos com ele.
(by Luís Mateus)